´´Observe as tendências mas não Siga a maioria`` Thiago Prado


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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Geisel e Lula

Carlos Alberto Sardenberg*

Não foi por acaso que parte da esquerda brasileira se encantou com a política econômica do presidente Ernesto Geisel, na década de 70. O general, que trazia uma bronca dos americanos, a qual caía muito bem para o figurino, tinha uma visão de economia muito ao gosto do que se chamou de ala desenvolvimentista da América Latina: o Estado comanda as atividades econômicas, investindo, financiando, subsidiando, autorizando (ou vetando) os negócios e a atuação de empresas, determinando ainda quais setores devem ser estimulados. Mais ainda: com a força das estatais e seus monopólios, o governo organizava empresas para atuar em determinadas áreas.

O presidente Geisel, como se vê, tinha mais poderes do que o presidente Lula. Todos os setores importantes da economia estavam nas mãos de estatais, de modo que o controle era mais direto. Além disso, havia o AI-5, instrumento de poder absoluto. Quando o presidente dizia a um empresário ou banqueiro o que deveria fazer, a proposta, digamos assim, tinha uma força extra.

Lula, mesmo com menos poderes, tenta fazer do mesmo modo. Geisel era o dono da Vale. Lula não é, mas pressiona os atuais controladores da mineradora para que ajam deste ou daquele modo.

Geisel montou empresas, como as famosas companhias da área petroquímica, tripartites, constituídas por uma companhia estrangeira, uma nacional privada e uma estatal, na base do um terço cada. Aliás, convém notar: não faltaram multinacionais interessadas. O capital não se move por ideologia, mas por... dinheiro. Devia ser um bom negócio entrar num país sem competição e com apoio do governo local.

Do mesmo modo, as multinacionais do petróleo vão topar (ou não) o novo modelo de exploração do pré-sal não por motivos políticos, mas pela possibilidade de ganhar (ou não) dinheiro. E pela segurança do negócio.

De certo modo, o ambiente todo era mais seguro no tempo de Geisel. Não havia como se opor às determinações do presidente. Fechado o negócio com o seu governo, estava fechado. Com o Legislativo, o Judiciário, partidos e imprensa manietados, como se opor ou mesmo discutir?

Hoje, o presidente Lula tem as limitações de um regime democrático, além de seu poder econômico ter sido muito reduzido depois das privatizações e da rearrumação da ordem econômica. Ainda assim, tem instrumentos poderosos, como o BNDES, e a possibilidade de manipular a carga tributária, aumentando e reduzindo conforme seu interesse neste ou naquele setor.

Ora, o financiamento do BNDES, por ser subsidiado pelo contribuinte brasileiro, é o mais vantajoso da praça. Num país de carga tributária tão elevada, qualquer redução dá uma vantagem enorme ao setor beneficiado. Assim, em vez de se concentrar em seu negócio, pode ser mais útil para o empresário fazer o lobby em Brasília.

De certo modo, Lula até organizou essa ida a Brasília, ao pôr representantes dos empresários no Conselhão (o Conselho de Desenvolvimento) e em diversos comitês, como este mais recente, de avaliação da crise.

Geisel fortaleceu a Petrobrás, da qual, aliás, havia sido presidente. Verdade que a esquerda não gostou dos tais contratos de risco de exploração de petróleo, criados pelo presidente numa tentativa de atrair mais capitais. Mas não funcionou. O que funcionou foi a enorme expansão da Petrobrás, que então já era dona exclusiva do monopólio do petróleo.

Geisel levou-a à petroquímica, ao comércio externo e ao varejo dos postos de gasolina. Com privilégios. Geisel reservou para a estatal a instalação de postos de gasolina em determinadas estradas e áreas.

O presidente Lula trata de devolver à Petrobrás privilégios que perdeu com a Lei do Petróleo de 1997.

Outra coisa comum aos dois governos é o apreço por obras grandiosas. Não é por acaso que Lula tenta retomar alguns programas de Geisel, como as usinas nucleares.

Mas há aí uma grande diferença. Geisel fazia, punha os projetos na rua, como a Ferrovia do Aço, o programa nuclear (feito com os alemães, para bronca dos americanos) e tantos outros. Mais fácil, claro: não tinha licença ambiental, não tinha Ministério Público, nem sindicatos, nem juízes para parar obras na base de liminares.

Hoje, Lula tenta driblar esses "estorvos", mas vai tudo mais devagar.

E - quer saber? - pode até ser bom para o País. O estrago será menor. Porque, esse é o resultado geral, o governo Geisel deixou uma ampla coleção de cemitérios fiscais e empresariais. Enquanto o Brasil conseguiu financiamento externo - com os bancos internacionais passando para os países em desenvolvimento os petrodólares, a juros baratos -, o modelo ficou de pé.

Com a crise mundial dos anos 70 - com inflação e recessão, consequência da alta dos preços do petróleo, de alimentos e, em seguida, do choque de juros - a fonte secou e o Brasil quebrou.

Resultaram estatais tão grandes quanto ineficientes. Lembram-se das teles? Havia a Telebrás e uma estatal federal em cada Estado. E uma linha fixa de telefone, em São Paulo, custava US$ 5 mil.

Resultaram também empresas mistas e privadas absolutamente ineficientes, as produtoras das carroças, que só vendiam alguma coisa aqui dentro porque era proibido importar. De computadores e carros a macarrão. Só quando o comércio externo começou a ser aberto, no governo Collor, a gente soube o que era um verdadeiro espaguete.

Não foi por azar que tivemos uma década perdida, com inflação descontrolada, contas públicas falidas, dívida externa não financiável e empresas incapazes, que só existiam à sombra do dinheiro e da proteção do Estado. Ou seja, com o dinheiro do contribuinte.

Convém pensar nisso quando Lula, por exemplo, força o Banco do Brasil a ampliar o crédito e reduzir os juros na marra ou quando leva o BNDES a financiar cada vez mais bilhões. Os bancos públicos já quebraram mais de uma vez. O Brasil também.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

domingo, 6 de setembro de 2009

Geração Y

Jovens dinâmicos, impacientes e insubordinados modificam o mercado de trabalho 14/07/2009
Maxsuel Siqueira

Acompanhe a trajetória de jovens que fazem parte de uma geração que representa hoje o futuro de qualquer empresa.

*Guilherme Tossulino, 26 anos, começou a carreira cedo e em pouco tempo passou por diferentes companhias. Formado em Sistemas de Informação, teve pressa em acumular experiências profissionais e atualmente é analista de sistemas do Instituto de Estudos Avançados (IEA), em Florianópolis, Santa Catarina.

*Mestranda do programa de pós-graduação em Ciência, Gestão e Tecnologia, Paula Carina tem um currículo extenso: formou-se em Biblioteconomia e foi pesquisadora de inteligência competitiva, pela Knowteck. Segue carreira pública e, de quebra, presta serviço de consultoria informacional.

*Bacharel em Design Gráfico e especialista em web, Diego Homem mora em Dubai e trabalha como gerente de conteúdo em uma agência web, a Flip Media. "A experiência em Dubai faz parte de um antigo sonho. Quando retornar ao Brasil, não descarto a possibilidade de trabalhar em outras capitais, mas antes quero conhecer o trabalho de TI em outros países", explica.

Guilherme Tossulino, Paula Carina e Diego Homem são típicos representantes da mais nova geração de profissionais que desafiam, mais do que nunca, as regras de atração e retenção de talentos. Eles têm algo a mais em comum: Diego e Guilherme criaram o blog Minha Carreira, espaço onde compartilham tudo que sabem sobre o mundo corporativo. Paula Carina chegou depois e hoje são quatro colaboradores. A caçula é a carioca Liliane Fonseca, de apenas 22 anos. "Futura trainee, quase publicitária e estagiária de Comunicação", como ela mesma se define.

A Geração Y, formada pelos nascidos nos anos 1980, domina um quarto da população mundial e que logo dominará a força de trabalho, consumo e política mundiais. Também conhecida Geração Millenial, já que entraram no mercado na virada do século, é um grupo composto por jovens criativos, familiarizados com diversas tecnologias e ávidos por desafios. Almejam uma carreira meteórica, possibilidade constante de crescimento, flexibilidade de horário e compartilham a idéia do "trabalho para viver, não vivo para trabalhar". Eles enxergam no salário a fonte de recursos para investir em conhecimentos, roupas, viagens, carros e celulares; assinam a maioria dos blogs; sugerem pautas para a imprensa nacional; discutem em fóruns e estão em maior parte nas mídias sociais. Um motivo para investir neles? Não são promessas. Além do mais, vão comandar as empresas e o país em um futuro próximo.

Gestores de grandes companhias se sentem inseguros. Professores são diariamente confrontados por alunos impacientes com aulas expositivas. Pais não sabem o que fazer. A constatação é única: velhas práticas precisam ser revistas. Os jovens Y possuem novos valores profissionais e novos conceitos para conhecidos termos, como fidelidade e paciência. Eles usam a mesma informalidade das conversas por e-mails no contato com o chefe ou presidente da empresa. Não se importam com certos protocolos da hierarquia e acreditam definitivamente que tempo de carreira só é posto no exército.

Geração Y busca por novos desafios no mercado de trabalho

A velha idéia de que "para chegar lá" e ter uma vida feliz é necessário muito esforço e trabalho não funciona com os jovens Y. Eles querem tudo ao mesmo tempo, sem abrir mão de um só momento de lazer. Os pais, não querendo repetir o abandono e a rigidez das gerações anteriores, educaram seus filhos com uma maior flexibilidade. "As gerações que já estão na empresa foram acostumadas em trabalhar com dedicação e reconhecimento por tempo de trabalho. A Geração Y só fica numa empresa se (e enquanto) estiver aprendendo. Não aceitam trabalhar somente por um prato de comida. Precisam se sentir importantes na companhia", afirma a pesquisadora da Companhia de Talentos, Renata Damásio.

Renata Damásio acredita que o Recursos Humanos das companhias vem evoluindo lentamente, deixando de ser apenas uma compartição, atuando de forma estratégica. "O que estamos assistindo é uma retomada da dimensão humana após anos seguidos de ambição material e consumo irresponsável. Na Era Industrial os funcionários eram vistos como recurso, assim como a tecnologia, o capital e a infraestrutura. A geração Y termina por dar um basta nisso, já que sobrenome corporativo e posição no mercado não seguram mais esses jovens nas empresas", explica.

Um relatório anual realizado pela Cia. de Talentos mostrou que a chance de ter novos desafios superou a imagem da empresa como principal razão para escolher um empregador. A última edição foi feita entre maio e junho do ano passado com cerca de 27.661 jovens brasileiros, entre 17 e 28 anos, universitários e graduados. O estudo revelou ainda que crescimento profissional e qualidade de vida estão no topo das necessidades. Do total, 97% afirmaram saber Inglês e 76% disseram estar prontos para enfrentar o mercado de trabalho. De fato, uma nova era. "A empresa ideal é lugar onde eu possa ser ouvido, valorizado, onde tenha a chance de colaborar e aprender", declara o jovem estudante paulistano Sergio Rodrigues, 18 anos.

Largamente discutido nos Estados Unidos, o tema é novidade aqui no Brasil. "A sociedade passou por diferentes esferas de poder: a posse de terra, de bens, de capital e, recentemente, de informação. O problema é que os mais velhos continuam dando à informação mais valor do que deveria ter hoje. Acreditar que o chefe deve ser o mais bem informado é falso, já que ninguém é capaz de manter informação por muito tempo e muito menos dar conta de estar informado sobre tudo. O jovem Y sabe disso. O que o atrai é a capacidade de conexão, de networking de seu líder", afirma o autor do primeiro livro brasileiro sobre o tema, Sidnei Oliveira.

Para Sidnei Oliveira, as respostas mudaram porque as perguntas não são mais as mesmas. "Os novos profissionais não querem controles rígidos. Eles exigem liberdade para andar com as próprias pernas. Algo como: 'me fale a direção, mas me deixa seguir sozinho. Só me avise se estiver errando, caso contrário não interfira no meu processo. Não questione se estou de Jeans, All Star, se uso pircing
ou se meu cabelo é laranja'", revela.

"A história determina uma cultura, que determina um comportamento", é desta forma que a consultora e presidente do Grupo Foco, Eline Kullock, entende as diferenças de comportamento entre a gerações. Formada em Administração de Empresas e MBA Executivo, Kullock também é sócia, há 13 anos, da Stanton Chase Internacional, multinacional de 'executive search', localizada em Londres. Pesquisadora das tendências do comportamento e a influência dos video games na atuação profissional dos jovens, ela explica como compreender melhor o fenômeno dessa nova geração.

O que define uma geração? Na sua opinião, estas mudanças ocorrem da mesma maneira ao redor do mundo?

Eline Kullock - O assunto ganha força nos países com alta taxa de natalidade. Além disso devemos saber que a história determina uma cultura, que determina um comportamento. Quando a geração Baby Boomer era jovem, o Brasil era subdesenvolvido. Com o tempo passou a ser chamado de país em desenvolvimento. A Geração Y cresceu com uma auto-estima diferente. A geração passada viveu uma ditadura militar e o pior é que não havia uma forma de avisar ao mundo o que estava acontecendo. O Brasil era mais fechado, não havia tantas multinacionais. Atualmente os jovens encontram um mercado expansivo, com muitas opções de escolha e uma acirrada guerra de talentos.

O que esta geração tem de especial em relação às demais?

Todos somos influenciados pelas características de todas as gerações, mas trata-se da primeira que aprendeu com seus pares. Os filhos chegam hoje em casa e perguntam: "Faço vestibular para Midialogia, Ciências do Consumo ou Direito de Internet?" O que responder? Instituições como a família, escola e o trabalho estão perdendo sua força tradicional porque estes jovens se deram conta de que já não temos mais as respostas.

Como definir o momento que estamos vivendo?

Antigamente, dizíamos "geração passada", para falar dos mais velhos. Hoje falamos da convivência de diferentes gerações em casa, na escola, no meio social e no trabalho. A imagem que a gente tinha das pessoas com mais de 60 anos era aquela de nossa avó sentada numa cadeira de balanço. A medicina deixou claro que a vida não acaba na terceira idade, logo os mais velhos não querem se aposentar e levar uma vida monótona. A expectativa de vida aumentou.

Os mais velhos se sentem desconfortáveis com a chegada de novos talentos no trabalho?

O Baby Boomer é pai do jovem Y que está no mercado. A geração X ficou no meio disso e para eles parece injusto que os mais novos encontrem as coisas "mais fáceis", já que foram obrigados a obedecer a controles rígidos por tanto tempo.

Como lidar com os jovens da Geração Y?

Colocando-os para trabalhar em grupo. São bons nisso. Colaboram quando há um objetivo em comum. Afinal, foram eles que criaram e alimentam a wikipédia. Priorizam aprender, portanto buscam e permanecem em empresas de onde possam tirar o máximo de conhecimento e, não é que não gostem de dinheiro, eles gostam, afinal levam uma vida intensa e precisam cobrir essas despesas, mas necessitam sentir que estão crescendo a partir das tarefas que realizam. Algumas empresas já se deram conta de que é preciso oferecer integração entre trabalho e diversão. Quanto a restrições no trabalho, é melhor pensar duas vezes antes de bloquear o acesso ao orkut, msn e outras formas de relacionamento.

O que os tornou tão ansiosos?

Quem já viveu uma experiência fora do Brasil há 20, 30 anos sabe bem do quanto fazer uma ligação era algo raro e caro. É injusto obrigarmos que eles sejam tão pacientes como fomos. Mesmo o que moram fora dos grandes centros urbanos são contaminados pelo novo conceito de tempo, seja pela internet ou mesmo pelo celular. O conceito mudou. Não havia fastfood, drive-through, disc delivery e outras comodidades como temos hoje.